Relatos

Mudando de País com Crianças

Vamos mudar. E agora?!

Quando decidimos nos mudar a maior preocupação foi com a adaptação das crianças. Como eles iriam reagir? Será que iriam fazer amigos? Quanto tempo demorariam para aprender um novo idioma?

Crianças podem ter reações muito diferentes em relação à mudança de país, mas a forma como nós pais reagimos é fundamental nesse processo.

Em primeiro lugar foi preciso ter coragem para sair da zona de conforto. O novo é bom, mas o desconhecido assusta, sabia que teria que abrir mão das festas em família, que ia sentiria falta das minhas amigas, de diversos lugares que costumávamos ir, dos churrascos lá em casa e várias outras coisas… Mesmo assim resolvemos encarar o desafio e focar no lado bom, pois uma experiência como essa é sempre recompensadora e enriquecedora.

Em segundo lugar teríamos que preparar as crianças, eles teriam que participar da decisão da mudança, teríamos que ser o mais honestos e abertos possíveis, na época tinham 4 e 7 anos mas era muito importante que eles reconhecessem a sensação de perda, afinal tiveram que abrir mão da escola, da casa, das atividades, dos amigos, de terem os avós por perto. Não poderíamos passar só o lado bom, eles precisavam entender que a angústia e o medo faziam parte da mudança.

O que fizemos foi mostrar o que seria o desfio, e como ultrapassá-los. Mostrar que estaríamos sempre por perto e que se algo não desse certo poderíamos recomeçar, a regra era de que eles nunca poderiam sofrer nesse processo,teriam que enfrentar e superar os desafios, mas que isso não virasse um sofrimento. Eles teriam que se sentir seguros e apoiados e com muita conversa e isso aconteceu de uma forma bem razoável, tínhamos um grande aliado, morar em Orlando, ter a Disney como parceiro facilitou muito as nossas vidas e a tecnologia de hoje em dia ajuda muito a amenizar a distância e a saudade, sabiam que teriam novos amigos.

Deixamos as crianças escolherem o que levar (claro que tinha que dar na mala) e para nossa surpresa eles não escolheram quase nada! Lembro que me partiu o coração quando minha filha mais velha chegou com um porta retrato com a foto das amigas (elas estudavam juntas desde o maternal), ela falava que isso era o mais importante. Como isso doeu, na verdade essa lembrança me dói muito até hoje.

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Passando por essas etapas, comecei um grande processo de pequisas. Pesquisei a respeito de tudo que se possa imaginar (ranking das escolas, alimentação, atividades extra para as crianças, passe anual para os parques, remédios, plano de saúde, como era o bairro, como tirar carteira de motorista, grupos brasileiros etc…..)

Isso foi muito bom, as crianças participaram de tudo e quando chegamos fomos conhecendo o que juntos havíamos pesquisado. Tivemos que refazer nossa rotina. As crianças ficaram 2 semanas sem ir pra escola, primeiro conhecemos o bairro, supermercados, visitamos escolas, foram ao pediatra, conheceram o parquinho do bairro, começaram a fazer atividades extras (ginástica olímpica, aula de circo e pintura) enfim foram se ambientando, tendo contato com o novo idioma e se preparando para o grande desafio que seria enfrentar a nova escola.

O idioma era o grande desafio, porém seria necessário ser visto como um acontecimento positivo que lhe acrescentariam valor.

Em relação a escola, depois de ver todos os rankings e conhecer as escolas desistimos de colocar na escola pública. Optamos por uma escola particular montessori. Essa escola recebia muitas crianças de vários locais do mundo, era uma escola pequena, ela não seria mais um número. Chegamos a conclusão que nesse processo de transição essa seria a melhor escolha. Ela gostou da escola e assim foi ela, firme, tranquila e segura como sempre foi, os planos seriam dela ficar na escola durante 6 meses, prazo que várias pessoas falavam que a criança leva para aprender razoavelmente o novo idioma, porém nos apaixonamos tanto pelo método de ensino que ela continuou lá. O meu menino foi pra outra escola, era um jardim de infância no qual ele só ficava na parte da manhã. No início foi ótimo, porém um tempo depois ele não queria ficar de maneira alguma. Foi um processo difícil e trabalhoso, ele ficava tão nervoso que tinha dor de barriga. Conversava muito com ele, falava que ele poderia escolher outra escola mas ele queria ficar lá. O problema era a hora da entrada, a hora da despedida. Na verdade eu acho que ele tinha medo de não conseguir se comunicar. Como ele não falava inglês, muitas vezes falavam com ele em espanhol para ser mais fácil a comunicação. Conclusão, quando vi a criança estava falndo bem melhor espanhol do que inglês. Um tempo depois ele foi para o mesmo colégio da irmã e foi tudo bem mais tranquilo.

Tivemos que enfrentar novos desafios, você vai ao pediatra e não conhece. Recomeçar é difícil. Ela não me deu o telefone dela para caso de emergência, eu teria que ligar para uma enfermeira relatando o que se passava. Nossa, mas que medo dos meus filhos ficarem doentes no fim de semana, como eu liguei para o pediatra deles no Brasil para confirmar qualquer medicação. Lá o sistema é diferente, o calendário de vacinação é diferente, meu filho antes de poder ir a escola teve que tomar 4 vacinas em um só dia. Duas em cada braço. Não teve conversa, tipo posso dar 2 na próxima semana. Acho que eu sofri mais do que ele. Como o tempo tudo vai se encaixando, você vai se acostumando e aprende a colocar gasolina sem ajuda, o que fazer quando o alarme de incêndio disparar porque você resolveu fritar um bife para as crianças(se não for nada e os bombeiros chegarem você pagará uma enorme multa), descobre pessoas que ajudam na manutenção da casa, descobre restaurantes saudáveis, descobre a importância da rede social ,como funciona o sistema de coleta de lixo (também tem multas altas se não colocarmos de acordo com as regras) faz uma nova rede de amigos (na grande maioria brasileiros), conhece uma pediatra brasileira que você passa a adorar e confiar e assim passa a aproveitar todos os bons momentos que a vida está lhe oferecendo.

Pra concluir, posso falar que essa experiência valeu muito a pena. Aproveitamos muito a qualidade de vida que lá é oferecida. A mudança fortalece muito a unidade familiar e lá foi possível ver  meu marido pegar as crianças na escola, ver uma atividade extra, foi possível acompanhar e curtir muito mais de perto o desenvolvimento das crianças. Estávamos em um país diferente, sem familiares e sem amigos, a vida era só nós 4 e como isso foi bom e enriquecedor para a nossa família. É preciso focar no lado bom para poder aproveitar o máximo, saber que cada pessoa terá uma reação e um tempo para adaptação e que ocorrerão momentos felizes e também ruins, que alguns dias iremos nos questionar o que viemos fazer aqui, que precisamos ter paciência, ter olhos abertos para perceber os sinais que as crianças nos passam, que nós sempre seremos um estrangeiro, que a saudade da família e dos amigos dói, que recomeçar a nossa vida não foi fácil e  que sempre existirá uma grande diferença cultural, mas saber que no fundo tudo valeu a pena.

Valeu muito a pena como experiência para a nossa família, passamos a ter uma visão diferente de várias coisas,ganhamos mais cultura, descobrimos novas amizades e conseguimos recomeçar.

E agora não somos mais 4, somos 5. A família aumentou e todos estão felizes e adaptados ao novo país e a nova rotina.

O que fazer?

MUDAR NOVAMENTE!!!!!!…

Dani @umafamiliaporai (Uma família que mora nos Estados Unidos, Portugal e Brasil)

A Dani é colunista do blog e vocês poderão encontrar dicas dela aqui de 15 em 15 dias!

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31 comentários em “Mudando de País com Crianças

  1. Nossa só de ler já me deu medo, eu sou muito medrosa, sei que as vezes certas mudanças são inevitáveis e sair da zona de conforto pra mim é uma grande problema… Mais fiquei contente que tudo está bem e a família aumentou

    Bjs Mi Gobbato – Espaço das Mamães

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  2. Dani!! Corajosa!! Mas o país que vcs “escolheram” tem muitas facilidades. Imagino que a família faça muita falta. Mas se adaptar num país tão bacana qto os EUA e principalmente Orlando deve ter facilitado!adorei seu relato! E Qdo formos para Orlando vamos nos encontrar!!!💝

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  3. Dani, muito legal o seu relato, mostrando as dores e delícias do novo. Mudar é bom, mas sem dúvida exige muita coragem e todos vocês tiveram. Ciganos naturais. Fico muito feliz de vocês estarem felizes e adaptados. A distância e a saudade a gente administra e tenta resolver nas férias. 😘😘😘

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  4. Me identifiquei em vários pontos, apesar de ter mudado de estado e não de país. Mesmo assim não é fácil. E super concordo em focar nos pontos positivos e procurar sempre tirar proveito do que tem de bom no lugar novo. Os laços da família estreitam sim, ficamos mais juntos e unidos, a saudade dos familiares aperta, a cultura é confrontada, mas se tem muito aprendizado e novas possibilidades!

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  5. Comecei a ler o post e fiquei super emocionada. Meu marido volta e meia fala de morar fora, mas não é na Disney… No começo fui categórica: não.
    Depois passei para um vamos pensar. Agora com meus filhos tudo fica mais intenso. Foi ótimo ver que no final deu tudo certo! Vou acompanhar a coluna e qualquer coisa pedir socorro!!

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  6. Dani..
    Essa experiencia única seus filhos vão levar para sempre..
    Vc fez a coisa certa minha amiga..
    Aqui vc tem pessoas que te amam muito e senti sua falta..
    Desejo toda a felicidade do mundo pra vcs e que vcs sejam muito felizes..
    Amo mto essa família querida ❤️
    Se cuidem..e quando vierem a passeio mande notícias para matar as saudades..
    Beijinhos e aproveitem essa oportunidade..e nos conte tudo!!!

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    1. Ai que legal! Uma mudança é sempre uma luta nas nossas vidas, mas as vezes é necessário. O bom é que com isso aprendemos e até adquirimos novas experiências para nossa vida! Muito linda essa história, sempre tive curiosidade em saber como é criar uma criança fora do pais de origem. Um beijo.

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  7. Minha afilhada passou por isso e no caso dela foi bem tranquilo. A família foi morar na Austrália e as crianças também tiveram que aprender o idioma por lá. Minha sensação ao ler o post foi que deixar a criança participar do processo, seja qual for, torna tudo menos difícil. Corajosos vocês!

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  8. A distancia doi demais… Mudei de cidade, dentro do Brasil mesmo, e ja senti a falta da familia, amigos, igreja, restaurantes, mercados…
    Nem inagino quai doido seria mudar de país…
    E concordo 100% com o fato de que mudanças fortalecem o vinculo familiar!

    Deia Tomaz – Lancheira do Joao

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  9. Dani, excelente relato! Como é diferente ir só como turista de ir pra morar… Começar do zero… TV à cabo, carteira de motorista, escola das crianças,serviços… Mas as crianças( e os adultos também) só têm a ganhar com essa experiência de vida. Aguardo um relato sobre a vida com seus miúdos em Portugal…

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  10. Dani, adorei seu relato! Como é diferente ir como turista e ir para morar… Começar tudo de novo, escola, carteira de motorista, TV à cabo, serviços…
    Mas com certeza é uma excelente experiência de vida pras crianças e para os adultos também.
    Aguardo o relato da vida com os miúdos em Portugal…

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  11. Seu post, é emocionante!
    Lindo!
    Parabéns, pela família linda. Deus abençoe vcs. Também tenho esse desejo caso apareça uma oportunidade.
    Mas sempre que der conte um pouco do seus momentos. Ficaremos aguardando

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  12. Dani super admiro a família de vocês. Já até comentei com vc. Deve ser muito legal viver em outro país, conhecer novas culturas, novas pessoas. Mas tudo na vida tem seu lado não tão bom, mas uma família unida é o principal para superar qualquer obstaculo! Parabéns pra todos vocês! Que Deus abençoe muito sua família linda e que vocês sejam felizes em qualquer lugar desse mundo! 👏👏💛💛💛

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  13. Que máximo!!!! Amei o relato! 🙂 Eu e o marido, antes de engravidarmos, pensavamos muito em mudar de país e esse desejo ainda permanece conosco. rs Mas acho que primeiro vamos mudar de estado… haha Parabéns e que legal que a família continuou a crescer com toda essa mudança! Me fala onde eles trabalham que eu topo me mudar constantemente assim! rs beijos, tati!!!

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