Educação · Relatos

O que devemos ou não contar aos nossos filhos?

 

Aqui em casa sempre optamos por falar a verdade com as crianças. Não teria assunto proibido, só teríamos uma linguagem e acesso as informações de acordo com a idade deles.

Tinha certeza que estava indo tudo muito bem, que estava cumprindo muito bem o meu papel, até o dia que me deparei com um dever de casa do meu filho. Ele precisava fazer uma redação a respeito do filme que tinham visto na escola sobre o drama vivido por crianças refugiadas. Crianças que, independente de classe social, estão tendo que abandonar suas casas, suas escolas, seus amigos, suas vidas, suas histórias, e partirem para uma viagem de horror. Apenas com uma mochila nas costas vão em busca de um futuro, já que, em seu país, essa possibilidade não existe mais.

E agora o tema da redação era: E se fosse você? O que você levaria na mochila?

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Quando vi o dever fiquei muito assustada. Pior ainda foi quando ele começou a contar, apavorado, os detalhes do filme e ainda me questionar se eu não sabia que isso estava acontecendo.

Inicialmente me indignei e fiquei sei saber como agir. O que é isso? Como assim? Como podem falar de um assunto tão pesado desses para crianças de apenas 7 anos? Como eu poderia ajudar em um tema desses, já que é um assunto em que nem eu mesmo consigo digerir? Como explicar para uma criança eventos desumanos? O que e como eu deveria contar? Mas e agora, fazer o que, já que foi ele mesmo que me contou tudo?!

Pensei em deixar o dever de lado e passar um e-mail para a escola. Contudo, depois de parar, respirar fundo e ter a certeza de que meu modo de pensar só funcionava na teoria e não na prática, fui reavaliar meu modo de agir e educar.

Nunca havia falado com as crianças a respeito de terrorismo, guerras etc… Se estavam comigo quando estava passando um noticiário eu, simplesmente, mudava o canal e as informações que eles viram por aí eu explicava mudando de assunto ou falando que tais eventos eram coisa de gente maluca, ou que era ficção ou que só acontecia em um local muito longe da gente. Enfim, dava uma explicação qualquer, sem entrar em detalhes e terminava o assunto.

Senti saudades de quando ele era menor, que bastava o meu colo e um beijinho para acabar com todo o medo e insegurança. Agora, no entanto, não dá mais para agir assim. Ele já começou a descobrir o mundo e com isso descobriu que nem tudo é bom.

Então, decidi sentar, com calma e sensibilidade, para falar do assunto, respeitando o que ele conseguia entender. Poupei os detalhes, sem esconder ou minimizar a brutalidade dos fatos. Expliquei que o mundo não é mau, mas que, infelizmente, existem pessoas muito más. Ressaltei, no entanto, que ele poderia ficar tranquilo já que existem muito mais pessoas boas do que pessoas ruins e que esses adultos já estão tomando as providências necessárias para acabar com isso. Enfatizei que várias pessoas no mundo inteiro se unem para ajudar aos que precisam. Também vimos vídeos na internet que mostravam o recomeço de vida de famílias refugiadas.

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Após toda a explicação, já estava mais calma e fiquei ainda mais tranquila quando percebi que, mesmo diante de um assunto tão pesado, nada tinha afetado sua ingenuidade. Ao fazer a redação sobre o que ele levaria na mochila, a resposta, apesar de lógica, foi genuína e infantil como deveria ser. Ele disse apenas que, como não poderia levar muita coisa, então, só levaria o Ipad.

Com essa experiência, refleti que educar é muito mais que dar conhecimentos cotidianos e habilidades. Educar é preparar as crianças para serem pessoas capazes de fazer do mundo um lugar melhor. Educar é mostrar que altruísmo e ações como o voluntariado pode mudar a vida, não só de quem recebe ajuda, mas também de quem dá.

Dar consciência da realidade para meus filhos, não traumatizou, não os tornou menos crianças, nem os fez perderem a ingenuidade. Eles apenas ganharam mais consciência e noção da importância de ser um cidadão do bem, capaz de se indignar e lutar contra os absurdos que ocorrem nesse mundo. Espero que, assim, eles aprendam a reagir, a criticar, a questionar e a brigar sempre por um mundo melhor e mais justo.

#ajudarfazbem #maisamorporfavor #porummundomelhor #cidadaosconscientes #novageracao

Bjs

Até a próxima @umafamiliaporai

ASSINATURADANI

 

 

 

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30 comentários em “O que devemos ou não contar aos nossos filhos?

  1. Nossa parei aqui para refletir tbm, meu filho tem 6 anos, e também optamos em sempre falar as coisas da forma que ele entenderia sem mentir, mas em alguns casos sem muita profundidade, sobre refugiados nunca falamos mas como já foi visto por ele juntamente a nós enquanto estávamos assistindo os jornais sobre alguns ataques, crimes sempre falamos que algumas pessoas não são como nós e/ou amigos nossos que são legais, fazem o bem.. Mais é uma situação dura de lhe dar e uma hora ou outra teremos que falar sobre assuntos mais complexos

    Bjs Mi Gobbato – Espaço das Mamães

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  2. Pois é amiga a vida muda em uma velocidade alucinante. Hoje acontecem coisas, que claro aconteciam, em menor escala eu acredito, no passado. Porém, com o advento da tecnologia, as informações chegam rápido e por todos os lados e assim fica impossível blindar os filhos. Imagino o quanto isso foi dificil pra você, mas o fato é que temos realmente que prepara-los para a realidade.

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  3. Aqui sempre que surgia alguma questão conversávamos numa boa!! A vida lá fora é cruel e desumana e essa realidade deve ser conhecida por eles de alguma forma!! Bia passou por um episodio onde um pai de aluno da creche em que trabalho, uma pessoa maluca e desequilibrada, veio tirar satisfação com ela sobre uma brincadeira que a filha dele havia reclamado.Ele foi grosso, gritou com ela e eu não estava perto…desse episódio ela tirou a lição de que algumas pessoas são ruins e eu de que nem sempre estarei ao lado dela para defende-la e não traumatizou!! Tudo depende da forma como levamos os assuntos e abordamos as situações!!

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  4. Nossa, emocionante esse post, Tati. Tem horas que queremos privar nossos filhos do terror que é o mundo hoje em dia, a fim até mesmo de romantizar ou deixá-los livres de tanta violência. Mas acho que os assuntos devem ser abordados com seriedade sim, para que eles saibam o que vivemos atualmente.

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  5. Tati, nunca tinha parado pra pensar assim. Realmente uma hora teremos que contar para nossos filhos sobre o mundo verdadeiro, sobre as crianças que sofrem e não tem sorte em ter uma família, casa e amor. triste realidade. Que Deus nos guie para sabermos usar as palavras. ❤

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  6. Dani!
    Lindo lindo texto, linda sua sensibilidade de parar, pensar e explicar da melhor forma possível para uma criança entender. Falar nas palavras certas.
    Sobre o iPad. Te garanto que Rafa ia escolher levar Tb na mochila rsrsrs…. Beijos Tati e Dani!

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  7. O inesperado sempre acontece… Quando achamos que estamos fazendo tudo por nossos filhos, sempre aparece uma situação que nos faz refletir e enfrentar com serenidade e clareza para com as crianças… Esta situação foi muito bem colocada pela mãe zelosa Dani Baptista, fazendo com que seu filho absorvesse as explicações com muita consciência e entendimento, concluindo assim seu dever de casa, a Redação. Parabéns pela colocação, pela verdade, pela confiança e pela segurança para com sua família!!! Beijos, Rosa Coelho

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  8. Nós com essa mania de não deixar que sofram, acabamos as vezes atrapalhando um pouco.O certo mesmo é falar a verdade de uma maneira mais suave possível e você Dani sabe fazer isso muito bem.

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  9. Realmente mt difícil falar com os nossos filhos sobre esse assunto! Mas temos q ter sempre papo franco com eles, como pais sabemos falar com jeitinho !! Adorei sua atitude .Parabéns !!

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  10. Quero que meus filhos saibam tudo por mim, seja o bem ou o mal. Gosto quando os professores iniciam em sala uma pauta e jogam para os pais, assim assumimos uma posição. Educar é difícil.

    @nossasaogemeos

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  11. Considero alguns assuntos delicados e “engasgantes” para falarmos até mesmo entre adultos… Imagino a dificuldade que seja abordá-los com crianças!!!
    Acredito ser muito mais fácil falar sobre sexo (assunto tabu para muitos mais) do que sobre a maldade humana, a violência e determinados temas que eles começam a levantar e/ou perceber referentes à humanidade, ao mundo e a falta de amor latente…

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  12. João ainda é pequeno, então ainda falamos sobre esses horrores de forma bem infantil com ele… Mas sou a favor de expor fatos de forma sincera as crianças, sem fantasiar muito, apenas adaptando a uma linguagem que eles entendam…
    Imagino sua dificuldade em explicar essas atrocidades para seus filhos… nossos pequenos sao tao puros que nao conseguem entender esses absurdos que acontecem mundo a fora…
    Muito forte esse video… retrata bem a vida de muitas crianças, infelizmente…

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  13. Tati adorei a abordagem da Dani! Fiquei imaginando a “saia-justa” Dani!! Tão difícil saber a hora certa de assuntos que nem nós mesmas conseguimos digerir. Pelo menos para mim é difícil. Imagina explicar isso ao meu filho. Você encontrou uma boa forma de resolver a questão!

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  14. Excelente postagem e assunto. Inicialmente estava contra o seu entendimento ao você escrever: “Vou deixar de lado e mandar mail para escola”..
    E na sequencia, você parou, refletiu e decidiu sentar junto e explicar o que via da situação. Parabéns! Por mais que seja difícil, a partir de uma certa idade não podemos mais “deixar de lado” as informações reais sobre o que acontece ao nosso redor. O mundo não é fácil e o quanto antes prepararmos nossos filhos eles irão enfrentar com segurança e maturidade…
    Ótimo post!!

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  15. Acho melhor falar a verdade, claro que de acordo com a idade. Por aqui falamos do desperdício, e damos exemplo das crianças que não tem papá, e ficam com fome. Aos poucos vamos contando as coisas.

    Beijos Mila (@mundodamae)

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  16. Foi a melhor atitude possível! Na sua situação eu talvez reagisse no impacto da mesma forma, mas acho que acabaria por ter a mesma atitude, de explicar de forma a que compreendesse a realidade mas sem impressionar demais.
    O mundo tem pessoas más e é por isso que temos que prepara-los para enfrentar essas mesmas pessoas tornando assim o mundo melhor, mais habitável.

    Beijinho
    http://www.blogasbolinhasamarelas.blogspot.pt

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